quinta-feira, 10 de julho de 2014

A (irritante) lição dos hermanos

Meus quase oito anos morando na Argentina incluíram duas Copas do Mundo, 2006 na Alemanha e 2010 na África do Sul. Nas duas vezes eu lembro que era bem irritante a segurança dos argentinos de que eles iriam muito longe, de que tinham Messi e a melhor seleção de todas, de que forças do Universo já mostravam que era óbvio que seriam campeões. Parecia que eles tinham um futebol fantástico há décadas, quando na verdade não ganhavam nada desde 1993 (o que continua valendo). A própria seleção argentina parecia entrar em campo certa que só precisava de duas coisas para vencer: a camisa bicampeã e Messi. E os vi serem desclassificados sentindo muita dor e decepção as duas vezes, como se fosse uma grande injustiça dos deuses do futebol.

Agora estamos em 2014. A seleção brasileira começou a Copa sob muitas críticas. De fato, tudo era criticado naquele momento, qualquer coisa que envolvesse a Copa. Mas a seleção me passava a sensação de achar que estava predestinada, que não tinha como não ser campeã. Confesso que eu entrei nesse clima. E até tratei os adversários com desdém. Temos Neymar, temos a sede... temos a camisa pentacampeã. Parecia que eu vivia o drama argentino, mas agora na minha seleção.

Enquanto isso, os hermanos entraram num estilo mineiro, surpreendentemente: não eram tão favoritos, não tinham tanto salto alto, e estavam mais quietos, deixando grandes nomes do futebol mundial se exibirem enquanto passavam quase despercebidos. E um ponto fundamental: não queriam mais saber de dar show em campo, de mostrar os grandes jogadores que estão ali. Queriam avançar na competição. E focaram nisso.

O que eu vi ontem em campo no jogo contra a Holanda foi uma lição do futebol hermano: entendam seus limites, assumam e joguem com o que podem, não o que gostariam de ser. Bem direta: eles ontem jogaram o que conseguem ser, e não mais o que acham que são. E olha, isso falando de argentinos... quanta terapia! 

Claro que todos queriam ser a seleção de 70 tricampeã, levantando a taça com um futebol de embelezar os olhos. Mas acho que é preciso reconhecer o que podemos fazer. Mesmo a seleção de 70 não chegou lá por milagre: foi feita uma preparação técnica intensa, teve o "Planejamento México", não foi o milagre do sangue brasileiro e a camisa canarinho. Foi esforço e trabalho. Copa do Mundo é estratégia, também. A Argentina ficou na retranca? Sim, mas eles souberam usar as armas que tinham. Sabiam que era a opção para atingir um objetivo.

E outro ponto: a união do grupo. Nem acho que exista inimizade no elenco brasileiro, nada disso. Mas ainda não construímos aquela união, falta o líder, falta uma cumplicidade. E temos um técnico de um autoritarismo (o cara que diz que Pinochet é seu ídolo...) e uma arrogância que não só irritam, mas assustam. A coletiva de ontem com o Parreira foi para terminar a lambança que vimos em campo. Incapazes de assumir que houve erro. Afinal, super natural um 7X1 na semifinal, acontece toda Copa! 

E ainda fiquei impressionada com a quantidade de pessoas de países da América Latina (Equador, Panamá, Colômbia, Paraguai e outros) torcendo CONTRA o Brasil. Sim, achamos que todos nos adoram... já foi essa época. Hoje, nossa seleção passa exatamente isso para os demais: arrogância. Estrelismo. E acabou o tal "jogo bonito".

Quem diria que nós brasileiros iríamos ter uma lição de humildade logo dos argentinos. Agora é aguentar a zoação, que, convenhamos, é merecida. Se eu zoei sem limites em 2010, nem imagino a alegria que eles sentem agora. 



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