domingo, 22 de junho de 2014

A Copa no Maraca: o palco da rivalidade sul-americana

“Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até o seu mistério… Sua magia opera com igual eficiência sobre eruditos e simples, unifica e separa como as grandes paixões coletivas” – Carlos Drummond de Andrade

E começou a Copa do Mundo. Se antes mesmo das seleções entrarem em campo ela já estava cheia de polêmicas, não impressiona que os jogos também sejam marcado por diferentes visões. Por isso, achei legal chamar um amigo para comentar o mesmo jogo que eu fui. Eu e o Pina temos muito em comum: vascaínos, adoramos futebol, frequentamos estádio e tivemos uma ótima experiência na Argentina quando ele foi me visitar. Achei que ia ser legal que ele desse um pitaco tão distinto ao meu. Concordem comigo, com ele, com os dois, com ninguém... o importante é opinar!


Fiz as pazes com os hermanos na arquibancada
Por: Lívia Magalhães

Que eu tenho um lado hermano, acho que todos sabem. Foram quase 8 anos morando lá, tenho família (que roubei e não pretendo devolver), grandes amigos e o cachorro mais lindo do mundo que também foi a Argentina que me deu. Apesar de momentos em que quero realmente acabar com o nosso vizinho do sul (e nas últimas duas Copas ter torcido muito contra eles), voltei para casa e prevalece meu amor por aquele país. Por isso, queria demais ir a um jogo deles. E no Maraca. Não conseguia acreditar, só mesmo minha irmã incrível para conseguir isso para mim. E lá fui eu...
Alguns amigos argentinos  vinham para o jogo e como moro muito perto combinamos de nos encontrar antes. Levei os hermanos ali para a área do Buxixo, comemos uma boa picanha com farofa e caipirinha. E lá fomos nós para o Maraca.
Do lado de fora, o clima era de pura festa, tranquilo. Erro grave: sem banheiros químicos.  Liberar bebida alcoólica e não pensar no banheiro... Encontrei logo meu portão, que era o mesmo que o de dois amigos, mas em setores diferentes. Entramos juntos e claro que eu nunca fui para o meu lugar. Os argentinos preocupados “Li, vão te tirar daqui”. E eu só ria: “gente, isso é Maraca!”. E tinha razão: fiquei o jogo todo ao lado deles, na escadinha. Me sentindo numa verdadeira arquibancada do Maraca. Meus amigos e os demais encantados: “Estamos no Maracanã!”, e eu sorrindo e dizendo apenas “eu cresci aqui. É a minha casa. Apesar dele não tem metade da graça de antes... ainda é lindo”.
           

           Os ingressos daquele setor eram de estrangeiros, logo... eu tava no meio da torcida argentina! E aí eu entrei na festa: cantei, enchi bola, subi na cadeira, abracei os caras da organizada. Virei a “brazuca buena onda”, e uns sujeitos meio estranhos me adotaram, dividindo a cerveja e as batatas fritas. Quase convenci a que me levassem seguindo a seleção. Tenho a leve impressão de que eles estavam ali sem ingresso, mas ignorei esse fato.
O mais legal foi estar em uma torcida para uma seleção. Sim, eles torcem enlouquecidamente um jogo todo pelo país, e não só pelo clube de coração. Ainda acho que o brasileiro torce sem igual por seu time (não preciso nem falar que minha torcida é a melhor, claro!), mas pela seleção... dava até uma vergonha alheia escutar o tempo todo aquela desgraça de música “Sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”. No meio dos argentinos, meu lado historiadora ia ao delírio pulando aos gritos de “El que no salta es un inglés”!
Apesar do gol logo no início para "nós", dizem que o jogo foi fraco. Eu não sei. Mal via o que estava acontecendo em campo, era só festa. Como algumas das músicas cantadas também são comuns na torcida vascaína, eu participava de tudo, e os novos companheiros achando aquilo o máximo!

E então... gol do Messi. Aquilo era demais. Quem segue o blog sabe o que penso dele, ver um gol ao vivo, estar no meio da torcida, sentir toda aquela vibração. Messi parecia estar respondendo aos gritos de “Neymar” da torcida brasileira. O Maracanã parecia tomado pelo celeste y blanco, e a impressão era que eles estavam em casa. Aí veio o gol da Bósnia... e eu percebi que tinha muito brasileiro torcendo contra.
Houve hostilidade? Sim, dos dois lados. Eu até me empolguei e resmunguei contra a torcida brasileira no facebook. Ora, que atire a primeira pedra quem, amante do futebol, não se exaltou ali, no clima do estádio. Vi uns manés jogando dinheiro num argentino que tava com o filho na fila para comprar refrigerante. Surreal de tão ridículo. E, lá no meio dos hermanos, a torcida brasileira parecia uma chatice só. Até que... no final puxaram aquilo que temos de melhor. E eu não resisti: estufei o peito e cantei aos berros “Domingo, eu vou ao Maracanã...”. E fui até o final. Três sujeitos vieram tirar satisfação mas meus novos amigos bizarros me defenderam e disseram que era para me deixar gritar. E ali, sozinha na torcida argentina, berrei “VASCO!” enlouquecidamente. A brazuca aqui envolveu os hermanos e o Vasco se fez presente!
Para fechar, ainda ensinei os torcedores do Boca Juniors a zoar os “gallinas” do River com a música do Juninho. E voltei pra casa de alma lavada, certa de que meu ligar é no Maraca, no Rio, mas com aquela alegria pelo meu lado argentino estar tão feliz. E de que vão voltar pra casa lembrando que o Maraca é da brazuca buena onda e do seu Vasco! 


Rivalidade, sem perder a piada jamais!
Por Rafael Pina
Como diria o saudoso Zózimo Barroso do Amaral, “o mais refinado gentleman se transforma no mais sórdido canalha ao sentar a bunda na arquibancada”. Essa máxima é perfeita, mas amplificado exponencialmente no caso de rivalidades históricas, como é um caso de Brasil x Argentina. Em meus contatos anteriores com argentinos, tive uma excelente impressão, me fazendo acreditar que a rivalidade se concentrava no futebol. Estava corretíssimo.
Estive no último domingo no Maracanã junto com um amigo para assistir o jogo de estreia da Argentina contra a Bósnia Herzegovina. Claro que estava em nossos planos torcer fervorosamente para a Bósnia. Para tanto nos preparamos, principalmente fazendo artesanalmente, ficou tosco, uma bandeira da Bósnia, perucas, cartazes e apetrechos típicos de jogo, como perucas chamativas, cornetas e um não tão usual assim conjunto de cartões de juiz, eu ficando com o vermelho e meu amigo com o amarelo.


Meu amigo estava um pouco tenso, com um certo receio de estarmos sozinhos no meio de um monte de argentinos... Quase um profeta... Estávamos com 2 cartazes, um em bósnio, saudando as mulheres bósnias e um em espanhol, provocando o maior ídolo deles, o Maradona, relembrando o fatídico episódio do beijo entre ele e o Caniggia...
Ao entrar no estádio, conversamos com alguns argentinos e fomos bem tratados e tratamos bem... Mas ao entrar na arquibancada... aí a coisa mudou da água pro vinho... e vinho ruim, tipo Sangue de Boi... no primeiro corredor que avançamos em direção ao gramado, fomos “recebidos” por um argentino de forma extremamente hostil ao ver a bandeira da Bósnia. Fui xingado demais. Veio um amigo dele conversar com meu amigo que não entendeu nada que ele falou. Tentamos quebrar o clima dizendo que nos veríamos na final, estendemos a mão e nada dele acabar com aquela cara fechada e com aquele vocabulário onde de 10 palavras, 11 eram putos.
Trocamos de lugar, uns 4 a 5 blocos de distância de onde estávamos. O ambiente parecia melhor... Continuamos nossa brincadeira no pré jogo, sempre entoando cânticos pró Bósnia. Alguns argentinos estavam de cara amarrada, outros cantavam outras coisas e outros tantos nos xingavam...
Logo no começo do jogo, gol da Argentina. Foi como um momento de revanche, parece que estavam com os nervos à flor da pele, prestes a explodir. O gol foi a válvula de escape. Alguns argentinos nos agarraram e começaram a pular, ironizar os brasileiros, o Brasil, dizer que a copa estava comprada. Não nos abalamos e continuamos a torcer pra Bósnia. Argentina estava mal no jogo e a Bósnia crescia. Em um certo lance de perigo levantamos a bandeira, no mesmo momento um argentino puxou pra baixo alegando que estava atrapalhando a visão dele. Perto de nós dois princípios de confusão entre brasileiros e argentinos.
Conforme o jogo avançava e a Argentina não se encontrava no jogo, mais irritados eles ficavam e mais descontavam no Brasil, de qualquer forma, como em cânticos não querendo ser comparados com brasileiros, por exemplo. Tinha um argentino atrás de mim que ficou quase o jogo todo provocando o Brasil. Seja falando que aqui não tinha escolas, hospitais, sobre as mulheres, sobre Pelé, sobre corrupção e principalmente que a copa estava comprada para o Brasil. Este cara quase me tirou do sério de tão chato que estava. Dava vontade de falar que a copa de 78 foi descaradamente roubada, mas esqueci o nome do goleiro peruano... Podia falar também do gol de mão, ilegal, que ajudou a Argentina em 86... Mas achei que não valia a pena...
Um detalhe, a cada falta da Argentina, meu amigo e eu levantávamos os cartões. Isso os deixava bem irritados. Todos, não argentinos, riam muito. Fazer o quê? Tem que ter bom humor sempre!!
No segundo tempo, a Bósnia pressionava. Comecei a brincar dizendo que Messi não estava ali, mas sim seu primo Maxi Biancucchi. Queimei a língua com um lampejo do Messi em um golaço. Desta vez eles foram para cima de nós com mais “vontade”, digamos assim. Puxaram minha peruca, bandeira e um deles gritava chupa e segurava o órgão genital com fervor em nossa direção!
No gol da Bósnia fomos ao delírio, fuzilados pelos olhares de ódio e xingamentos que já nem entendia mais. Não importava, comemoramos muito! Pena que a valente Bósnia não conseguiu empatar, mas valeu a pena pela diversão. No fim, fomos cumprimentar os argentinos, que aliviados e felizes pela vitória, nos cumprimentou, meio a contragosto, meio ainda feliz pela vitória.
Saímos ilesos. Apesar de toda a hostilidade e xingamentos, estávamos inteiros. Mas sinceramente, em um jogo Brasil e Argentina, tenho medo do que pode acontecer. Seria legal pelo espetáculo, principalmente porque o Brasil venceria, claro!! Mas a segurança deveria ser bem reforçada!!

Parafraseando o genial Millor Fernandes, esta “guerra” nunca acabará, pois os lados beligerantes vivem se confraternizando! E viva a rivalidade e esta relação amor e ódio que tem um pouco do drama argentino e da malandragem brasileira !!

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