quinta-feira, 8 de maio de 2014

Coisa de mulher

Quarta-feira, 7 de maio de 2014, de Paris para a BBC Brasil, lá estava a matéria contando sobre Helena Costa e seu feito: a portuguesa será a primeira mulher a treinar um time profissional masculino de futebol na França. 

Em comunicado oficial, o Clermont Foot 63, que atua na segunda divisão do futebol francês, comenta que a chegada de Helena permitirá ao clube entrar em uma nova era. 

A moça, aos 36 anos, tem um currículo invejável. Foi treinadora adjunta do Sport Lisboa e Benfica, em Portugal, conquistou o primeiro lugar do regional de Lisboa à frente do Cheleirense e títulos com os times femininos do Sociedade União 1° de Dezembro e do Odivelas. Foi chamada para criar toda a estrutura do futebol feminino do Catar, onde treinou as seleções juvenil e adulta. 

Até a decisão de assumir o time francês, ela comandava a seleção feminina do Irã. 

A responsabilidade assumida por Helena é imensa, não só porque o clube depositou grande esperança em seu trabalho, mas porque ela é uma mulher assumindo um time masculino. 

E todos sabemos como o ambiente do futebol pode ser hostil para as moças, da torcida até a presidência de um clube, passando pelas funções representadas em campo. Mesmo as jogadores recebem bem menos respeito e destaque que os jogadores. 

Há quem diga que futebol feminino não é esporte, tampouco deve ser levado a sério. 

Foquemos, por um instante, em Helena Costa e na BBC Brasil, que noticiou sua contratação com a seriedade e o respeito que uma profissional de seu gabarito merece. Convenhamos, sua ficha corrida bota muito técnico de série A no Brasil no chinelo. 

Mas ela é mulher. 

Como seria noticiada no Brasil, em qualquer portal esportivo, a contratação de uma mulher para comandar um time local? Mesmo que de segunda divisão? 

Corta a cena para a mesma quarta-feira, dia 7 de maio de 2014, para o jogo do São Paulo. Estava em campo como auxiliar a catarinense Fernanda Colombo Uliana. 

Já no momento do jogo se observava uma postura impositiva com a moça e suas marcações. Erradas ou não, o jeito de reclamar não é o mesmo. Reclamar com auxiliar homem é diferente. 

No Globoesporte, logo na home do São Paulo, a chamada destaca a opinião de Muricy. "É bonita, mas errou". A fotinho menor, no carrossel de notícias, a categoriza para identificar a matéria: "Musa". 



Auxiliares e árbitros erram e acertam o tempo inteiro. Mas, quando estamos falando dos homens, a grande questão levantada é sobre a profissionalização da categoria. 

Quando falamos de mulheres, a discussão é sempre se ela é bonita e/ou gostosa, o que ganha até mais destaque do que sua atuação em campo, seja ela impecável ou condenável. É bonita, mas errou. Além de gostosa, mandou bem. 

Não é a primeira vez que uma mulher vira "musa" na lateral do campo, até já vimos gandulas concretizando a fama estampando revistas masculinas, para o delírio da macharada. 

Fernanda é linda? Sim. E tem um baita corpão também. A moça é atlética, como se espera de alguém que precisa correr e ficar em cima do lance em um jogo de futebol. Mas isso é relevante para a sua função ali, bandeirando? Não. 

Então por que discutimos isso? Por que a pauta confronta sua beleza com sua competência? 

As mulheres vêm conquistando seus espaços nesse mercado da bola, mas em momentos como esse percebemos o quanto ele nos continua sendo hostil.

Talvez alguma coisa mude quando os portais passarem a focar mais no currículo das profissionais, como fez a BBC, e menos em suas medidas, como outros preferem fazer. 

Até lá, creio eu, ainda tem muita bola para rolar. 

E segue o jogo. 

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