terça-feira, 2 de julho de 2013

Sobre paixões, torcida e ideologias em tempos turbulentos

“Uma pessoa pode mudar de nome, de rua, de cara…mas existe uma coisa que não pode mudar… não pode mudar de paixão.”


Esse é mais um texto polêmico. Mas, algo deveria ser dito, pelo menos eu sinto que não dá pra ignorar tudo que está acontecendo. Ele está há duas semanas no rascunho e talvez possa parecer meio louco. Mas estava na hora de publicá-lo.

Primeiro, que fiquem algumas coisas claras:

*Esse post é assinado pela Lívia. Imagino que Nanda, Camilla e Marcela vão concordar com algumas coisas e discordar de outras. Mas, de todas formas, não é uma opinião das Lulus, ok?

*Acredito, sim, que precisamos ter foco. Os protestos começaram por uma questão pontual, o aumento das passagens e a luta pelo passe livre e a qualidade dos transportes públicos no país. Existem muitas outras coisas que incomodam? Tudo bem. Mas enquanto não mantivermos o foco, nada será conquistado.

*Esse ainda é, sim, um blog sobre futebol. Mas nunca fomos de fugir de uma polêmica, ao contrário: procuramos sempre nos posicionar em assuntos diversos. Futebol para gente tem um sentido social, maior, e não vamos engolir esse papo de que ele não deveria ser misturado com política. Futebol é parte da sociedade, não tem como fugir disso.

*O texto será longo. Lembre-se que eu avisei quando chegar lá no final e você achar que perdeu seu tempo...

Feitas tais ressalvas, soltarei a primeira bomba. Sim, eu sou a favor da Copa e das Olimpíadas no Brasil. Sou a favor de que um país em que o futebol tem um peso tão grande realize o maior evento esportivo do mundo. E arrisco mais: é muito comodo nós, classe média com acesso a jogos e eventos internacionais aí fora, não entendermos que, para muita gente, essa é a única oportunidade de participar disso tudo. Eu sempre quis participar de uma Copa, sempre foi um sonho. Mas.... não queria que fosse assim.O problema é: parece que esses megaeventos não são para nenhum de nós.

É claro que eu não concordo com a forma que tudo tem sido feito. Desde a corrupção nas obras, da Lei da Copa, das exigências da FIFA e do COI, de desalojar pessoas, da repressão, violência e da suja CBF. A lista é imensa, todos sabemos. Mas o que considero mais grave não é a questão de querermos escolas e hospitais. É que poderíamos ter feito tudo: escolas, hospitais, Copa e Olimpíadas. Os Megaeventos (e não só os esportivos, aliás vamos começar a disparar: não vejo ninguém com cartaz nas ruas contra o dinheiro público -118 milhões de reais- que está sendo dado para a Jornada Mundial da Juventude da Igreja Católica, mas tudo bem) não são a razão para que a nossa situação social seja esse caos. Eles pioraram? Pode ser, principalmente com esta questão de desalojar e acabar com nossos estádios. Mas culpá-los por tudo de errado, veja lá, é ignorância. E pior: não resolve nada.

Achar que as pessoas não tem educação e hospitais por causa dos Megaeventos (repito: os culpados são só os esportivos?) é ignorar tantos problemas e dar aval para coisa continuar como está. Os desvios, o mau uso do dinheiro público destinado a estes e outros setores.

Tampouco podemos resumi-los a uma lógica gananciosa de interesses financeiros. Para quem não sabe, existe uma política do governo Federal, de 2005, de colocar o Brasil no cenário mundial a partir dos Megaeventos (vamos lá, mais uma vez: não só esportivos. Tava aí a Rio+20, se você não quiser que eu entre no tema religioso). É, em grande parte, uma política diplomática. Existem diversos trabalhos sobre este tema, é só dar um google caso se interesse em aprofundar.

Já imagino que a maioria vai reclamar agora desse foco da diplomacia brasileira. Então vamos lá mais uma vez: não foi o Brasil (infelizmente) que inventou isso. Diplomacia Esportiva é hoje um braço forte internacionalmente. Nos Estados Unidos é política de Estado (veja aqui). Recentemente eu tive a oportunidade de estar em um Fórum na ONU sobre isso, discutindo como o esporte pode promover paz e desenvolvimento. E uma das coisas que fiquei impressionada foi que sim, é um caminho para dialogar. Se vocês soubessem os muitos, mas muitos exemplos, talvez levassem a coisa mais a sério. Vamos ver alguns:

*O Brasil possui uma Coordenação Geral de Intercambio e Cooperação Esportiva (CGCE) no Ministério de Relações Exteriores desde 2008, com projetos muito legais. Entre eles, trouxeram, com apoio do Santos (que pagou, antes que você reclame do seu dinheiro gasto) a seleção feminina sub-20 palestina para treinar no clube paulista. O significado disso para aquelas mulheres foi gigantesco: quando ainda nem eram reconhecidas como nação pela ONU, no Brasil elas podiam treinar e exercer sua atividade.

*Existem os Jogos da CPLP (Comunidades de Países de Língua Portuguesa), que por mais que ainda não tenham a dimensão esperada, são uma importante forma de diálogo e encontro.

*Em 2002 a Copa Japão - Coréia do Sul levou dois inimigos históricos a discutirem questões como a forma que a História era discutida nos livros didáticos de cada um dos países, na organização de uma comissão conjunta de debate (entre outros pontos).

*Nas Eliminatórias para a Copa da África do Sul em 2010, Turquia e Armênia se enfrentaram em jogos que tinham tudo para ser tensos. Afinal, era uma partida em cada território. E, num gesto diplomático, o presidente turco Abdullah Gul compareceu ao jogo no país rival, e o mesmo o fez o armênio Serzh Sargsyan. Resolveu alguma coisa? Não, mas foi um avanço muito maior que anos de diplomacia "tradicional".

E poderíamos continuar. Ou citar também casos de como o esporte ajuda jovens e crianças em situações de risco pelo mundo afora. Também nesse Fórum da ONU eu tive a oportunidade de conhecer o trabalho da Helen e sua fundação Cockroach Club Exchange (quem quiser ajudar, aqui), que procura manter crianças no Quênia na escola através do esporte. No Brasil existem várias ONGs, projetos da UNICEF e do Governo Federal que também procuram usar o esporte para este caminho de cidadania.

Longe de mim querer pagar de especialista ou dar "carteirada": mas acho que tenho, sim, algum mérito para falar do assunto. Não só estudo Copa do Mundo há uns belos 8 anos como há alguns meses passei a me dedicar a pesquisar sobre esses eventos em geral e outras experiências pelo mundo, a partir desta perspectiva diplomática. Dava, sim, pra fazer muita coisa com a Copa. Existe muita ignorância por todos os lados, inclusive de quem só reclama e critica.

Chegamos a outro ponto: por que, quem vai ao jogo, quem quer curtir a Copa, tem que ser tão criticado? Querer a Copa é algo tao ruim? Necessariamente querer um evento significa apoio a tudo de ruim que está sendo feito utilizando-o como justificativa? Eu acho que não. E olha que logo na final de domingo, quando nossa seleção jogou tão bem, num jogo emocionante, eu fiquei com o grito de gol entalado com a tristeza dos acontecimentos. 

Eu estava vendo com amigos e familiares num bar em Laranjeiras, e gritei com vontade o primeiro gol. Mas logo veio o telefonema da minha mãe. Moramos bem perto do Maraca (inclusive estávamos no perímetro FIfa do comprovante de residência para poder passar), e foi triste, tenso e me deixou nervosa escutá-la pelo telefone narrando o que via da varanda, o gás das bombas que chegavam até nosso apartamento, a polícia cercando e agindo como se fosse um filme de guerra. A partir daí a vitória desceu bem amarga. As pessoas eram perseguidas e a repressão covarde da PM corria solta enquanto estávamos ali, sentados gritando gol. Não é fácil lidar com isso, digerir e não misturar as coisas.

Mas eu não julgo quem comemora, não julgo os gritos de gol. E vou argumentar aqui com os dois exemplos que conheço melhor; as Copas de 1970 e a de 1978.

Certa vez comentei no facebook que quando eu comecei a minha pesquisa sobre esse assunto, na época do meu Mestrado, também não entendia como as pessoas apoiavam tais eventos em momentos como aqueles. Principalmente no caso argentino, com a Copa em casa. Mas aos poucos fui me permitindo escutar e compreender essas pessoas, suas experiências. Para muitos, as Copas foram, de fato, uma fuga da barbárie que viviam. Um depoimento sobre a Copa de 1978 ajuda a explicar um pouco isso;


Ya el acontecimiento del comienzo del Mundial fue muy singular. Porque fue el acontecimiento de masas populares más importante que había desde el momento del golpe. Y nos empezamos encontrar, nos empezamos a encontrar en la cancha. Era algo muy vertiginoso, gente que pensábamos que estaba desaparecida, que tenía 2 o 3 años que no nos veíamos, darnos un abrazo, parecía que estábamos celebrando el fútbol y en realidad lo que estábamos diciendo era “Estás vivo, mira yo también estoy vivo”. Lo que pasa es que hay toda una lectura emocional y dijéramos, hasta política. (Memoria Abierta, Testimonio de Rolando Concatti,Mendoza, 2008.)



Também acho legal a reflexão do jornalista Juca Kfouri. Na entrevista que tive oportunidade de fazer com ele, um dos temas foi a questão do torcer ou não torcer pela seleção durante a Copa de 1970, considerando esta lógica de que torcer pela seleção era torcer pela ditadura. Juca, que era estudante de Ciências Sociais, falou algo que eu ainda guardo e acho que todos deveríamos pensar:

No mesmo tempo que eu prometi que eu ia matar o Fleury, eu disse que não ia confundir as coisas. (...) Não vou deixar a ditadura levar até aquilo que eu tenho de mais íntimo (...). Nós vamos permitir que a ditadura nos usurpe até isso, até as coisas mais recônditas que a gente tem? Não pode mais curti-las porque identifica com a ditadura?

A frase que abre o post é do filme argentino "O segredo dos seus olhos", vencedor do Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro, que tem uma cena maravilhosa em um estádio de futebol. Os investigadores chegam ao suspeito pela paixão que ele não consegue controlar: seu clube de coração. Eu acho que, nesses tempos complicados entre esse torcer ou não torcer, fica aqui a minha pergunta: como mudar essa paixão pelo futebol? 

Eu concordo com o Juca. Não vou deixar que me tirem até uma das minhas grandes paixões. 

Um comentário:

  1. Perfeito, Livia. Concordo com tudo que vc disse. Fui ao jogo e fiquei muito feliz com isso. Não sou alienada, gosto de futebol. Mas também não canto "sou brasileiro com muito orgulho com muito amor"... e fui uma das poucas que vaiou o ronaldão e o valcke quando passaram no telão.

    Os recursos são escassos, mas com certeza não é preciso escolher entre sediar a copa e ter hospitais e escolas. As pessoas precisam entender isso. Depois comento aqui algumas impressões.

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