terça-feira, 25 de junho de 2013

Crônica de uma repressão anunciada

Estava preparando um post longo e polêmico sobre protestos e futebol. Ele tá no rascunho, e talvez até saia um dia desses. Mas, hoje eu não vou falar de futebol, eu não vou fazer um texto pensado e trabalhado. Não. Hoje é um desabafo.
                Morei fora muito tempo e viver no Rio de Janeiro hoje é uma opção, amo minha cidade e estou feliz em voltar. Porém, o que vivemos na noite de 5ª feira passada na nossa cidade me faz repensar muita coisa, e me enche de uma tristeza profunda. E antes de tentar descrever um pouco o que foi aquela noite no Rio de Janeiro, duas observações:

 - É triste que foi preciso isso  acontecer com a gente  para termos noção do que é a vida diária na periferia desse país. Como disse uma amiga, eu brigo por causas sociais, denuncio e critico tais condições nesses lugares, mas ontem eu vivi e senti na pele. E foi só uma noite o que, repito, tem gente que vive TODOS OS DIAS.

-Meu outro ponto é: não estou escrevendo para discutir sobre polícia ter que enfrentar bandido, sobre quebrar patrimônio público e os vândalos que estragam a manifestação pacífica. CHEGA desse discurso, CHEGA disso. O que aconteceu semana passada nas ruas do Rio de Janeiro (e de outras cidades do país) não tem forma de ser justificado. NADA PODE JUSTIFICAR, NADA. Sou bem radical nessas minhas posições então, para evitar que esse blog caia na mesmice do facebook, nada de "Bandido bom é bandido morto", certo?

                Eu fui à manifestação. Sai do trabalho (bem próximo à Candelária, uma das concentrações para ir até a prefeitura), mas não acompanhei desde o início. Estava esperando amigos e familiares, e ali da Rio Branco eu já achei tudo aquilo muito estranho: frequentadora que fui de protestos e micaretas, me senti muito mais no segundo evento.  Nada contra uma cerveja pra descontrair (eu precisei da minha no pós manifestação), mas o clima, as pessoas... estava tudo muito estranho.
                Eu fui quase ao prédio dos Correios. De longe, víamos as bombas voando na prefeitura, e resolvemos voltar. Para evitar confusões no caminho para casa decidimos, no viaduto do Santa Bárbara, ir ao bar da família no Mercadinho São José, e entramos no primeiro ônibus que atravessava o túnel. Tinha muita gente por ali, mas nada acontecendo, tudo tranquilo. Aparentemente, foi questão de poucos minutos... e a batalha campal começou ali. 
                Em 10 minutos estávamos no Mercadinho, celulares voltando a ter sinal e muitas mensagens do tipo “Não venha para a prefeitura, até o caveirão está aqui”; “estão jogando bombas de gás e atirando balas de borracha sem critério”. Aquela sensação horrível de que a PM tinha ido pra guerra. Mas não esperava, de forma alguma, o que aconteceria depois na cidade.
                Não pretendo ficar citando cada caso aqui, todos já estamos cansados de saber: bares na Lapa, Circo Voador, policiais de moto perseguindo e atirando, Cinelândia, Carioca, HOSPITAL Souza Aguiar, Faculdades (IFCS e FND) com pessoas sitiadas, e mais tarde até o Mercadinho teve que encarar as bombas. Foi uma coisa sem lógica, de uma PM que eu não considero despreparada; eu considero cruel, repressora e que queria sangue. O objetivo era colocar terror na cidade, mostrar que se eles quiserem, eles mandam, sem limites, sem critérios. Vídeos, temos vários. Depoimentos, muitos mais. E aquela sensação que a cidade maravilhosa é refém de um poder público nojento.

                Estou muito, muito triste, de coração partido, mesmo. Demorou a baixar a adrenalina e conseguir dormir. O medo que se sente... não dormir primeiro por querer saber que estão todos bem; depois, pela tensão e revolta. Muita revolta não só com a polícia, mas com tanta gente que aplaude este tipo de atitude quando ela não acontece no nosso quintal. Como eu repito incansavelmente: Direitos Humanos ou é para todos, ou para ninguém. Um dia, meu amor, eles vem e fazem com você aquilo que você aplaude quando é com os outros. E foi o que vimos na semana passada. Uma polícia que sempre agiu assim contra tanta gente, enquanto outros aplaudiam e pediam mais e mais repressão. O monstro da PM carioca não nasceu nem cresce sozinho. Ele é resultado de uma sociedade violenta, que agora se sente vítima. Parabéns aos envolvidos, e quero saber como vocês dormem tranquilos sabendo que pediram tanto por isso. Era óbvio que uma hora algo assim ia acontecer.
                Hoje, alguns dias depois e com a cabeça no lugar eu tenho algumas certezas e convicções (que nunca mudaram, nem nos momentos mais tensos). Primeiro, não vou apoiar esse lado fascista e violento das manifestações, que não respeita bandeiras partidárias (você pode não concordar, mas expulsá-los? Enquanto você, “gigante”, estava tranquilo dormindo, muita gente estava apanhando nas ruas). Não é a minha causa, de maneira alguma.

                Segundo, não vou parar. Quando as manifestações (coerentes e convocadas por grupos que eu apoio) voltarem, ali estarei de novo. Não vou aceitar que me assustem e tirem meu direito de lutar pelo que eu acredito. E ninguém deveria. Mas não aprendemos nada, né? Ontem a PM foi lá e massacrou a favela de novo. E meu facebook continuava gritando que esse tal gigante acordou.

 O futebol, a festa, ficou tudo de lado. Para mim, uma Copa das Confederações manchada pela truculência. 

Um comentário:

  1. Já foi manchada por tudo mesmo Lívia, aliás nas manifestações tem de tudo...tem aqueles que vão por interesse político, alguns que até apoiam regimes quem acabam com a nossa Liberdade de expressão e de ir e vir, gente despreparada seja de PM e de Manifestante que nem se pode chamar de manifestante e sim de gente que nada vale(gente que quebra lugar, saqueia pessoas) e infelizmente acaba sobrando pra aquelas pessoas de bem que querem e sonham por um país melhor independente de partido político ou não.
    É bom ver relatos de quem esteve lá, e só não estive lá e isso até falei outro dia por aí porque queria que fosse certo de que eu fosse lá e sairia vivo por protestar por um país melhor, agora essa de matar e morrer pelo o país sendo que a nossa vida é bem mais importante que tudo...aí não dá. Como vc quer ir protestar podendo correr riscos assim? Quem me garante segurança ali? Quem me garante que vou protestar por tudo que quero de melhoria para o país e ocorrer esse tipo de situação?
    São por essas situações que não to nas ruas protestando, mas se me garantissem que há segurança e que não tem gente de ambos os lados que só querem fazer anarquia e despreparação...eu seria o primeiro a estar lá!
    E não adianta, protesto é pacífico, aquele que descamba pra violência e para o quebrar tudo como se fossem guerrilheiros....não pode ser protesto. E isso não é forma de afirmar que o Gigante cresceu ou acordou(aliás esta frase foi usada antes de um golpe militar de 64 onde descambou na ditadura que pessoas de bem não querem que voltem nunca mais).
    Abraço Lívia e ótimo texto e ótimo relato!
    Igor(@igorsausmikat)
    meu blog de esportes: http://igoresportes.blogspot.com.br/ e no twitter o blog é o @blogdoigor05

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