quinta-feira, 25 de abril de 2013

Limite do absurdo

No momento da raiva, desabafei no facebook. A esta altura do campeonato, acho que a maioria dos interessados pelo tema já viram a reportagem que está circulando pelas redes sociais, cujo título já diz tudo: Excesso de democracia afeta organização da Copa, diz Valcke, que saiu no UOL.

"Excesso de democracia". Sinceramente, gostaria de entender o que alguém quer dizer com esta frase. Ou mais: como alguém pode dizer isto assim, como se fosse algo normal, aceitável. Pensem no mundo, nas relações complexas que vivemos. Por mais que você ache uma palhaçada ONU, defesa da democracia e dos direitos humanos (e eu tenho pena de quem não defende essas bandeiras), não é possível que os representantes da FIFA digam coisas desse tipo em público, como se não fosse nada. E não me venham com o discurso do "liberdade de expressão". Não, isso não pode ser dito assim, como se fosse um comentário de mesa de bar.

Bom, segue o desabafo do facebook, para os que não tiveram a oportunidade de ler.

E repito: que bom que incomoda a este tipo de gente reacionária e saudosista o nosso excesso de democracia. Queria que incomodasse muito mais.


Isso é tão absurdo, que deveria, no mínimo, ser condenado publicamente pelos países cujas confederações estão associadas à esta entidade. Blatter tem a audácia de falar da Copa da Argentina (1978) como se não fosse nada, uma situação até positiva, já que, em suas palavras, "Houve uma reconciliação do povo com o sistema político militar da época".

A pessoa estuda há pelo menos 8 anos a tal Copa, lê cada coisa, tenta entender como uma sociedade se relaciona com regimes autoritários através do futebol e todo esse blá-blá-blá. Escreve uma tese mostrando que tais relações são mais complexas do que a simples lógica apoio/resistência. E, em alguns momentos, até sofre vendo como seu esporte tão querido pode ter sentidos e representações macabras.

Essa reconciliação a que o Blatter se refere não inclui, imagino, o caso dos presos na ESMA que foram obrigados a sair em carro aberto após a vitória para "comemorar" o êxito nacional junto com aqueles que os torturavam incansavelmente. Durante os jogos, torturadores e torturados chegavam a se abraçar, numa lógica muito difícil de entender. Os sentidos de 1978 são inúmeros, claro, como eram as vivências naquele período. Isso é uma coisa.

Aí vem esses senhores e batem palmas para essa perspectiva de "reconciliação"? Para essa ideia de que, em ditadura, fica mais fácil? Do fundo do meu coração, gostaria que esses senhores conversassem com um familiar de desaparecido daqueles tempos. Ou com um ex-preso desaparecido, militante, exilado, e procurassem, por um segundo, escutar o que significou aquela Copa para eles. Não só a vitória da sua seleção; mas uma mistura de sentimentos, de contradições, da dor de ver o sonho da glória máxima do futebol entrar para a memória, e para a história, como a Copa da ditadura.

Talvez, só talvez, fosse um pouco mais humanos lembrar que estes eventos repercutem nas vidas das pessoas. Que muitos sofreram, perderam suas vidas naquele período, e merecem respeito. E assim ficamos ao ignorar nossos passados: somos fadados a situações absurdas no nosso presente.

Mas, apesar de todas as críticas que são feitas à organização brasileira de 2014, dessa vez eu me senti bem: Ainda bem, Valcke, que você está tão incomodado com o excesso de democracia no meu país. Mil vezes isso que sua alegria com a nosso passado ditatorial.

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