terça-feira, 26 de março de 2013

2014 e o massacre do espírito das Copas

Quem costuma dar uma passada pelo Clube da Bolinha sabe que amamos futebol e amamos nossos times do coração, mas estamos sempre procurando ver além das quatro linhas, ou seja, estabelecer relações entre o esporte e a sociedade, analisando os aspectos culturais, econômicos, políticos, sociais, etc.

Como botafoguense estou ainda mais atenta às injustiças e contradições desse negócio.

O futebol não precisa ser "o ópio do povo". Acreditando nisso mantemos um olhar atento aos preparativos para a Copa de 2014. Denúncias não faltam. Tais preparativos não contemplam as vontades e necessidades do torcedor do país e da cidade, mas sim os interesses econômicos de grandes construtoras e seus amigos políticos (aqueles que pegam carona em seus aviões).

Dentro deste espírito venho retomar uma questão que não tem tido muita atenção na grande mídia, mas é divulgada diariamente nas redes sociais: a aldeia Maracanã.

Como pode ser constatado neste post, eu desconhecia a existência deste espaço de resistência dos indígenas. Para mim, o Museu do Índio era apenas um prédio tristemente abandonado pelo poder público. Porém, com a notícia da demolição do mesmo para construção de um estacionamento/shopping ou adequação do entorno do estádio para a Copa, as pessoas começaram a se manifestar e assim fiquei sabendo que desde 2006 funciona ali a aldeia, um espaço de referência para os índios no Rio de Janeiro, de preservação da sua cultura, história e tradições. Além disso, segundo relatos dos indígenas, ali viveram índios maracanãs (daí o nome), que foram dizimados há muitos anos.

A idéia dos índios era desenvolver o local como um polo de sua cultura. A idéia dos atuais ditadores da cidade, é demolir o prédio e assegurar o espaço para aumentar os lucros de alguma empresa já bilionária. É no mínimo engraçado que agora estejam se preocupando com a circulação de pessoas em dia de jogo, se até hoje o poder público não se interessou por isso! Ao contrário, ao proibir o estacionamento do entorno do estádio, antes dele ser fechado para obras, piorou em muito a mobilidade na área (mas deve ter garantido alguns trocados em multas e outros em propinas). De repente, vai ter UM jogo da copa ali e é necessário impor a destruição daquele espaço. Peraí: milhares de jogos já foram realizados ali sem que o prédio jamais fosse considerado impecilho. Quem acha estranho levanta a mão! o/

Diferente dessa luluzinha aqui, o governo do estado certamente sabia dessas atividades no antigo museu do índio. Contudo, não negociou nem conversou com aquelas pessoas, mas comprou o prédio da Conab (companhia nacional de abastecimento, dona do prédio), por sessenta milhões de reais, para realizar as tais obras.

Apesar de pacíficos, os índios não são manés de simplesmente aceitarem tamanho descaso. Resistem. Ajudados por ongs, artistas, intelectuais e desconhecidos, recusaram-se a sair. Aí veio a reação despótica: força policial.

O vídeo abaixo vale a olhada. Sinceramente, é de chorar. Na minha opinião o maior problema não é o despreparo da polícia, mas a truculência ordenada pelo poder público. A arbitrariedade.



Me lembrei de uma vez que vi um grupo de policiais no Maracanã espancando um torcedor. Pode ser que ele tivesse brigado, que tivesse roubado, sinceramente não sei. Porém, o dever do pm não é bater e sim levar para a delegacia (ou coisa que o valha). Isso se chama covardia. E dói ver que o ser humano gosta desse poder. Afinal, porque prenderam o rapaz que mostrava o "tiro de paintball"que levara? Pelo simples prazer de poder prender alguém? De poder jogar um spray de pimenta na cara de uma criança aqui, de arrastar uma grávida acolá? Afinal, quem é o selvagem?

A Copa é um evento muito importante para o brasileiro (me incluo no grupo que ama essa competição e aguarda por ela ansiosamente), vai ser legal ter o evento aqui, queremos turistas, queremos investimentos, queremos ganhar a Copa. Mas não queremos só isso. E não queremos nada disso ao custo do desrespeito aos povos nativos e nossa história.

No futebol, a rivalidade é no campo, na provocação saudável das torcidas. O jogo se ganha ali entre as quatro linhas. Na copa sentamos ao lado do tricolor, do atleticano, do rubro-negro. Torcemos juntos e até nos abraçamos quando o Brasil ganha.

Não podemos ficar indiferentes perante essa total deturpação do espírito de alegria e união nacional que a Copa alimenta em nossos espíritos.

Para nossa sorte, os olhos do mundo estão voltados para esse evento e sua tão criticada organização. Isso pode despertar alguma vergonha na cara dos senhores que defendem este projeto de shoppingcenterização da nossa amada cidade.


Um comentário:

  1. Disse tudo Camilla, e o pior é q terá gente pra tapar todos os absurdos como esse e influenciar a galera também.
    Abraço
    Igor(@igorsausmikat)
    meu blog de esportes: http://igoresportes.blogspot.com.br/ e no twitter @blogdoigor05 pra quem quiser seguir o blog!
    E o blog segue muito bom, eu sigo aqui sempre!!

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