quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Futebol, ditadura, música... e justiça!

Ontem foi um dia histórico pra Argentina e pro mundo. O principal julgamento aos acusados de violação de direitos humanos e crimes de lesa humanidade na última ditadura civil-militar argentina teve seu veredito. Como esse blog é sobre futebol, não vou me estender muito na questão. Resumindo, ontem depois de 22 meses de julgamento, vários responsáveis pelos crimes cometidos na Escola de Mecânica da Marinha (ESMA) foram finalmente condenados. Alguns deles à prisão perpétua. Um momento emocionante, que você pode ver mais aqui. Mas e o que isso tem a ver com futebol? Tudo.

A ditadura argentina ficou marcada pela Copa de 78, que aconteceu no país. Até hoje o evento é motivo de discussões (e de trabalhos acadêmicos, como a tese desta que lhes escreve!), de muita briga: afinal, torcer e comemorar era apoiar o regime? Era ignorar os tantos desparecidos, as torturas, assassinatos, toda a violência cometida pelo Estado? Ou o futebol é mais que isso, e era até uma forma de resistência? Ou talvez nem uma coisa nem outra, era só futebol? Acho que a discussão não vai terminar nunca. Se futebol já é complicado de discutir, futebol e política, então, é briga na certa. Mas é importante reconhecer que sim, a ditadura se aproveitou do evento. Sim, ela usou a paixão popular pra fazer sua propaganda, e criar uma falsa imagem de paz dentro do país. E sim, muitas pessoas confundiram a seleção em campo com o regime. Infelizmente.

Entre as muitas manifestações que vemos até hoje, uma é especial pra mim. Acho essa música do grupo "La Mancha de Rolando" maravilhosa. Ela não apenas transmite o sentimento do torcedor, mas também essa contradição entre o torcer ou não torcer em momentos tão complicados como foi aquele vivido pelos argentinos. E o mais importante: ela é uma homenagem aos presos políticos, aos desaparecidos e aos seus familiares. Brilhante. Fica aqui a minha homenagem ao futebol e sua beleza -apesar de seu uso tantas vezes distorcido-, a belas músicas sobre futebol, e, principalmente à grande vitória ontem naquele julgamento. É só com justiça que podemos seguir em frente e garantir o "Nunca Más".

PS: Há poucos meses o autor dessa letra reclamou com o atual governador da cidade de Buenos Aires que usou a música em sua campanha. Segundo o autor Manuel Quieto, o político Maurício Macri distorceu o sentido da letra e a associou a um projeto político que o grupo não compartilha. Vale lembrar que Macri é o ex-presidente do Boca Juniors (gosto de brincar que é o Eurico porteño), e que Manuel é sobrinho de um advogado desaparecido daquela época.

Arde la ciudad

Tu equipo volvió a ganar,
te prendieron mil bengalas hoy.
La banda grita tu nombre y ves,
como la popular se va a caer.

Pero tu estrella no está más.
Se la llevó la mañana..

Arde la ciudad, llueve en tu mirada gris,
la gente festeja y vuelve a reír.
Pero este carnaval, hoy no te deja dormir,
mires donde mires ella esta ahí.

Tu vida siempre fue así,
te da y te quita por nada
y aunque estés solo, sin corazón
ahora tenes que seguir la función.

Y es una fiesta el bodegón
donde se junta la hinchada...

Arde la ciudad, llueve en tu mirada gris,
la gente festeja y vuelve a reír.
Pero este carnaval, hoy no te deja dormir,
mires donde mires ella esta ahí

Y es una fiesta el bodegón
donde se junta la hinchada...

Arde la ciudad, llueve en tu mirada gris,
la gente festeja y vuelve a reír.
Pero este carnaval, hoy no te deja dormir,
mires donde mires ella esta ahí..

Arde la ciudad, llueve en tu mirada gris,
la gente festeja y vuelve a reír.
Pero este carnaval, hoy no te deja dormir,
mires donde mires ella esta ahí

Um comentário:

  1. gostei da música pela sua explicação... sem isso não teria simpatizado :)

    Me parece que o povo argentino tem uma memória política muito mais forte do que o brasileiro...

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