segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A tragédia eterna do futebol brasileiro

Às vésperas da ida brasileira rumo a nossa primeira conquista mundial em 1958, Nelson Rodrigues escreveu um dos clássicos da nossa crônica e do futebol brasileiro, "Complexo de vira-latas":

Eis a verdade, amigos: - desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dirse- ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse "arrancou" como poderia dizer: - "extraiu" de nós o título como se fosse um dente. (O texto completo está aqui)


Mal sabia Nelson Rodrigues que o drama se perpetuaria não por anos, mas por décadas. E que, de fato, ele talvez nunca tenha fim. Hoje, 61 anos depois o Maracanazo -como ficou conhecida a vitória uruguaia- ainda dói nos brasileiros e gera aquela tensão a perda do caneco. Em 3 anos realizaremos outra Copa em nosso país, e a sombra de 1950 é inevitável.

Mas aquela Copa foi grande e inesquecível, não apenas pelo seu resultado. A vitória uruguaia fechou de forma impressionante o que seria um evento inesquecível. Até hoje é o recorde absoluto de público, não apenas a final, mas entre os 5 maiores da história das Copas do Mundo, 4 são de 1950:

Fonte: Fifa.com

É compreensível. Um gigante foi construído para a ocasião, nosso querido Maraca. Um mundo recém saído da Segunda Guerra Mundial via nos esportes uma maneira de estimular disputas e rivalidades saudáveis. O Brasil queria mostrar que era capaz, tanto de realizar um grande evento como de levantar o caneco. O Brasil queria não só ser grande; queríamos ser os melhores. E não conseguimos.

A dor da derrota fez o Brasil repensar não apenas sua atuação esportiva, mas toda a sua estrutura como sociedade. Foi um momento de grand
e reflexão, de acusações, de revolta. Mas foi também o momento de consolidação do futebol como um dos nossos elementos de identidade nacional. De fato, foi um marco na nossa história, e mesmo aqueles que demorariam tanto para chegar a este mundo, sofrem a dor daquela derrota como se a tivessem vivido, eu sofro como se eu estivesse ali nas arquibancadas do Maraca.

Com a Copa de 2014 se aproximando, é natural que os sentimentos que envolvem 1950 venham à tona mais uma vez. Escutaremos muitos casos, leremos muitos comentários. E talvez ninguém tenha certeza de que 2014 vai ser como planejado, se o Corinthians vai ou não vai construir estádio, se nós resolveremos problemas como segurança e transporte público. A única certeza hoje é essa: vai ser um mês tenso, com o fantasma de 1950 rondando a todos nós.

3 comentários:

  1. Livia, futebolisticamente falando, acredito que esse fantasma não seja tão assustador quanto parece ser, até porque a conquista de 1958 e as vitórias sobre o Uruguai na copa de 1970 e na Copa América de 1989(Que foi no Maracanã, exatamente 39 anos após o Maracanazzo de 1950)amenizaram drasticamente essa dor, esse "complexo de vira-latas". Agora, no campo da infra-estrutura, no campo político, da organização, ai sim o "fantasma" está rondando com força. Os últimos fatos sobre a construção e reformas de estádios estão comprovando isso. Estão querendo fazer uma grandeza a qualquer custo e, parafraseando o Pelé (quem diria?!), corremos o risco de pagar um mico em escala mundial.

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  2. Ô coisa enraizada! Até mesmo se ganhar a Copa, 1950 virá à tona: será lembrado como a copa que deu errado, enquanto essa de 2014 deu certo. Em 2050 fará 100 anos, nossos filhos e netos viverão isso tudo...rsrsrs.

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  3. Rafael, discordo. Claro que o Uruguai hoje não coloca medo, mas o truama tá aí, continua vivo. Tanto que estamos aqui falando nele! =) E acho que as vitórias que você citou amenizam, mas não apagam o Maracanazo...

    Concordo que o papelão vai ser a organização, mas isso não impede relembrar a dor de 1950, certo? Aliás, toda essa discussão de organização também ocorreu naquela Copa, inclusive no meio do evento decidiu-se que a seleção brasileira não jogaria mais em SP, alterando a tabela! Coisas do futebol brasileiro...

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