quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A história sem fim do futebol brasileiro





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O post é longo, fazendo jus aos mais de 20 anos de disputa. Mas acho que é necessário tocar nessa ferida. Aí vamos!

Nos últimos dias as páginas esportivas foram marcadas por alguns acontecimentos importantes, que nada tem a ver com os campeonatos em disputa. Primeiro foi a entrega da tal da Taça de Bolinhas ao São Paulo FC pela CBF. Depois, numa reviravolta estilo filme B, Sr Teixeira surpreendeu com o reconhecimento do campeonato de 87 ao Flamengo. Pra fechar a bagunça, o Corinthians anunciou oficialmente que deve deixar o Clube dos 13. Não, não estamos todos loucos e os dirigentes agora resolveram brigar por uma Taça com bolinhas penduradas, que acho feia que dói. Como sempre, o buraco é mais embaixo.

Em primeiro lugar, temos que entender o que é o tal do Clube dos 13. Trata-se de uma pessoa jurídica, com sede em Porto Alegre e fundada oficialmente em 11 de julho de 1987. Ou seja, é muito mais do que dirigentes se reunindo pra dar pitaco. E se você se interessa um pouquinho pelo tema, percebeu que o ano é exatamente aquele: 1987. O mesmo ano da disputa Flamengo X Sport.

Mas é importante entender o que acontecia no nosso país naquele estranho ano de 1987. O Brasil recém saia de 21 anos de ditadura (que terminou em 1985), ainda nem tinham ocorrido as eleições diretas pra presidente (só em 1989), e os traços dos anos ditatoriais ainda estavam fortemente presente em vários setores da sociedade, entre eles o futebol. Como os campeonatos nacionais com uma quantidade absurda de clubes, na lógica “Aonde o Arena vai mal, um clube no Nacional” (Arena era o partido oficial da Ditadura), que tornavam a competição não apenas uma loucura como pouco rentável para os clubes. E a CBF se afundava em suas próprias disputas internas e crise financeira. Foi nesse contexto que os principais clubes do país, liderados logo por São Paulo e Flamengo (pois é, que hoje brigam pela Taça de Bolinhas, que ironia, não?) decidiram que era hora de mudar a coisa e que era viável organizar outra competição, que também fosse rentável para os clubes (em tempo: competição AUTORIZADA pela CBF). E conseguiram: a Copa União de 1987 teve grandes patrocinadores, como a Globo e a Coca-cola.

Não vou repetir aqui o que aconteceu naquele ano, quem é ou quem não é o campeão. A maioria já cansou do assunto, mas se alguém quiser uma boa visão, pode ler mais aqui. O fato é que naquele momento a coisa ficou assim: Para o Clube dos 13, que organizou a Copa União quando a CBF se disse incapaz de organizar o seu campeonato, o Flamengo é o campeão. Para a CBF, que quando percebeu que o campeonato organizado pela nova entidade tava dando lucro e resolveu se meter e impor suas regras, o campeão é o Sport. Pra gerar mais problemas, em 87 ainda existia a CND (Conselho Nacional de Desportos, criado por Getúlio Vargas e extinta em 1993 por Itamar Franco). Adivinha quem a CBD considerou o campeão brasileiro de 87? O Flamengo. Ou seja, de um lado a CBF com o Sport; do outra a CND e Clube dos 13 com o Flamengo, numa disputa além do campo esportivo.

A briga entre as entidades nem durou muito tempo e logo o Clube dos 13 ficou “amiguinho” da CBF, e seu principal papel no mundo futebolístico brasileiro tornou-se a negociação das transmissões do Brasileirão (organizado pela CBF). Inclusive, quando em 2000 a CBF não pode realizar o campeonato nacional por questões legais, foi o Clube dos 13 quem o fez, a chamada “Copa João Havelange”, vencida pelo Vasco.

A coisa parecia mais ou menos ajustada entre as duas, até que em 2007 começaram novamente as picuinhas, e o Clube dos 13 foi se polarizando. Tampouco pretendo entrar nessa questão (que você pode ler mais aqui), mas chamo a atenção para uma clássica da política: dividir para dominar. De bobo, Ricardo Teixeira não tem nada. Deu a Taça de Bolinhas pro São Paulo (que tinha assinado que reconhecia o campeonato de 87 do Flamengo, mas parece que ética e futebol não combinam pra alguns, né?) e na semana seguinte reconheceu o campeonato do Flamengo. E nessa lambança, o Corinthians anunciou que deve sair do Clube dos 13.

Calma que tem mais. O Clube dos 13 ficou a cargo das negociações das transmissões do Campeonato, certo? E adivinhem só, a nova disputa é entre Globo e Record para ver quem transmitirá o Brasileirão... para apimentar ainda mais, o próprio site do Clube dos 13 fica no domínio globo.com. Quer que eu desenhe ou dá pra ver o que se arma aí? Ë muito, muito dinheiro em jogo. E dinheiro é uma coisa que esse povo aí gosta, e muito. Dinheiro e poder, a ambição do futebol brasileiro.

A CBF, que já sabemos que de santa não tem nem uma letra, se aproveita claramente de seu poder para fazer os clubes dançarem conforme sua música. Para a FIFA, existe apenas uma Associação Nacional que rege o futebol em cada país (o que inclusive foi um problema para o Brasil lá na década de 20-30, quando o futebol se profissionalizava no país), e no nosso caso é a CBF. Por isso, se Ricardo Teixeira acordar hoje com a idéia de que o XV de Piracicaba é o campeão de 87, a FIFA vai apoiar a CBF.

Portanto, os últimos acontecimentos não são coisa pequena, não estamos falando apenas de reconhecer ou não o título do Flamengo e de quem é a Taça de Bolinhas. Até porque, a lambança da CBF é tanta que agora o primeiro pentacampeão é o Santos! Trata-se aqui das estruturas políticas, dos interesses que envolvem e guiam o futebol nacional. Ninguém noticiou por aí, mas um dia antes de Teixeira reconhecer o título do Flamengo publicou-se uma entrevista em que João Havelange rasgava elogios ao seu ex-genro e o defendia para a FIFA. É coincidência demais na história toda. E o Flamengo sabe que, quando a esmola é demais, o santo desconfia. Como diz a Nanda, de boba Patricia Amorim não tem nada.

Quanto ao futuro do Clube dos 13, a coisa parece sombria. Corinthians e Flamengo, os dois clubes com maior torcida do país já mostraram que não estão satisfeitos com o rumo. Após o reconhecimento da CBF a presidente Patrícia Amorim não mediu as palavras e foi direta:

- Posso antecipar que o Flamengo ficou desconfortável sem o posicionamento do Clube dos 13. O clube foi desprestigiado e não teve o apoio que esperava. Isso, por enquanto, é uma rusga e não uma ruptura. Também ficamos muito desconfortáveis com o São Paulo, que foi parceiro na eleição do Clube dos 13. Hoje pensamos primeiro no Flamengo e ninguém pode condenar. Até porque sempre fomos de maior torcida, audiência e pensamos em um todo. A vida nos leva a repensar posicionamentos. É a lei da ação e reação – declarou Patrícia Amorim.

Futebol é isso aí. Muito além do jogo.

***

Como é comum com esse blog, enquanto eu escrevia o post, a notícia era publicada:

Quatro grandes do Rio decidem romper com o Clube dos 13


Falei que ainda tem muita, muita bola pra rolar...

9 comentários:

  1. Enquanto isso, as contas da reforma do Maraca não passam no TCU...

    A ingenuidade da maioria dos torcedores sobre o assunto beira (=) a ignorância. E assim vamos vendo los poderosos fazerem a festa enquanto a galera bate palma.

    Brasil, o país do futuro!

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  2. E acrescento: Glooobo, a gente se vê por aqui.

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  3. É esse jogo político que às vezes me faz encher o saco do futebol.

    O texto é melhor do que a maioria dos jornalistas têm feito sobre o tema. Bela análise!

    Renato

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  4. Acho que acabou o Clube dos 13, né? Além soberania da CBF falar mais alto, acabou perdendo a razão de ser, se os próprios clubes ficam sem poder de ação por conta do C13. Agora, será que com o fim do C13, os clubes poderão negociar por si só a transmissão de seus jogos? Porque, pelo que eu entendi, esse é o desejo do Sanchez, certo?!

    Aguardemos cenas do próximo capítulo....

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  5. Nessa guerra de egos, no reino da sacanagem, quem toma é o torcedor que paga pra assistir esse CIRCO que é o futebol brasileiro.

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  6. Sim, o Sanchez quer negociar isoladamente. Li que tb tá rolando uma pressão de alguns patrocinadores porque eles acham que o produto "aparece" mais na Globo e que eles podem perder essa "visibilidade" se o jogo "concorrer" com o JN e a novela. Além disso, a Record está ameaçando fazer matérias investigativas sobre os dirigentes. O primeiro seria o próprio Sanchez.
    Uma outra coisa que andei pensando aqui é pq o Clube dos 13 nunca se posicionou sobre a Libertadores. Por que o campeão brasileiro tem a sina de ir mal na libertadores? Porque o primeiro indicado pela CBF é o campeão da Copa do Brasil. Nesse sentido, o campeão brasileiro sempre pega o grupo mais difícil, caso do FLuminense esse ano, e o vencedor da Copa do Brasil o grupo (a princípio) mais fácil. Isso é uma incoerência...

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  7. Pois é, muita coisa ainda vai rolar e talvez a gente nunca saiba bem a maracutaia por trás disso tudo. Mas sinto que é um daqueles momentos em que as coisas mudam, não sabemos se pra melhor ou pra pior, mas mudam.

    E é poder demais nas mãos logo de quem: Sr Teixeira e Rede Globo!

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