quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A magia da torcida

Certa vez comentei por aqui sobre meu incômodo diante do conceito de torcida única em um jogo de futebol. A simples ideia de não ver a festa da oposição entre Flamengo e seus "rivais" cariocas (ou de qualquer canto!) me entristece.

Mais da metade da beleza de uma partida está nas manifestações que vêm das arquibancadas. Os mosaicos, as bandeiras, os gritos, os cantos, as lágrimas, a união de completos estranhos por conta de um só objetivo, uma só paixão. E as vaias, é claro. Time que entra em campo sem torcida não tem ninguém pra comemorar seus gols, mas também não tem quem vaie o adversário.

Não há futebol sem torcida, mas e quando a própria torcida assume posturas que vão de encontro ao futebol, ao esporte?

É o que eu tenho visto. Raposa e Galo poderem assistir clássicos uma de cada vez é um belo exemplo. O que aconteceu com o Corinthians, infelizmente, é outro. E até o Flamengo já teve algumas boas manifestações nesse sentido. Cada caso com suas peculiaridades.

As torcidas mineiras levam bem a sério a questão da rivalidade e simplesmente não podem coexistir dentro de um estádio. Acho que todos perdem com isso, de verdade.

No caso do Corinthians, já disse que entendo a insatisfação de quem compra ingresso, compra PPV, vai pro bar com os amigos ou ouve pelo rádio mesmo os jogos do time pra nunca enxergar em campo comprometimento compatível com a grana que os jogadores ganham. Mas agressão, ameaça, depredação, sei lá, isso pra mim chega a níveis de "engajamento" que me escapam. Juro que não consigo processar.

O Fla teve seus momentos de achar que torcida tem poder de voto e veto quando bem entender, a ponto de pressionar saída e contratação de técnico, jogadores e afins. E nunca de um jeito positivo, ou embasado. Sempre na emoção mesmo.

E a grande questão é que torcedor sofre de esquecimento grave. Sofre de imediatismo. Enxerga jogo a jogo, sempre focado no micro, ignorando solenemente o macro.

Como no caso da estreia de Rivaldo. Fez gol? É gênio! Rumo ao Hepta! Não fez muita coisa no segundo jogo? Tem que ver isso aí, de repente ele está velho, hein? Roberto Carlos fez golaço olímpico, ia ser o mais lindo de todos em 2011, graças à sagacidade de Ronaldo. Coisa de 1 mês depois, eles já eram inimigos públicos número 1.

Essa relação esquizofrênica não se sustenta. Estou sugerindo que as pessoas parem de ser tão emocionais? Não, impossível. Mas pensem em um namoro, um casamento. Se seu namorado ou sua namorada se comportam como malucos que revezam carinho com patadas ou atentados psicóticos, quero ver o amor se sustentar. Quero ver você não pedir um tempo ou decidir que seria boa ideia ver outras pessoas.

Agora pensa que até rola carinho, mas que também há dinheiro envolvido. Tipo, sei lá, vamos falar uma coisa bem absurda? Uma empresa. Vamos só fingir um pouquinho que futebol seja negócio? Aí você já começa a ter ponderações como "será que eu ganho pra isso?" e "cara, a grana é bem boa, mas pelamordedeus!".

Aí o cara foge do seu time, deixa o grupo na mão e o clima ainda dificulta a contratação de novos atletas, que  provavelmente não vão ficar ultra-empolgados com a ideia de trabalhar em um lugar um tanto quanto insalubre. Se resolverem pedir referência, então, danou-se.

Sei que são os torcedores que movimentam toda a grana, são eles que justificam o investimento das marcas como patrocinadoras e por aí vai, mas acho que tem gente levando muito a sério essa noção de "poder".

Assim como os jogadores precisam entender sua responsabilidade ao assumir o compromisso com um time, a ponta de cá precisa assimilar melhor seu papel, seus direitos e deveres, o que pode e o que nunca deve ser feito.

Não dá pra achar que isso tudo é futebol, que sempre foi e sempre será assim. Aceitar isso tudo é ser cúmplice de algo que só faz estragar a festa de todo mundo.

Como reclamar que não se joga mais por amor quando se acha que incentivar com terror é absolutamente natural e faz parte?

Acho que vale a reflexão. Por favor, não estraguem meu futebol.

2 comentários:

  1. Torcedor é quem torce. Vândalos e bandidos são outra coisa... e o que tem que acontecer com qualquer contraventor é o seguinte: prisão.

    hahahah e olha que eu nem sou a Marechal!

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  2. Onde assino?
    Infelizmente, Nanda, caminhamos para o lado contrário, às vésperas de uma Copa do Mundo para sediar.
    Fala-se d+ em proteções de acrílico, grades, fossos, tudo isso para proteger o profissional de futebol e separá-lo da torcida, quando o correto seria educar.
    Ok, educar é para longo prazo. Concordo! Pois então que se puna, se fiscalize e se dê o exemplo.
    Uma torcida só no estádio é como ir ao cinema, comprar a pipoca e não poder tomar o guaraná: a festa não fica completa!


    Lancei um desafio com prêmio lá no blog. Mande seus palpites e participe!

    Saudações!!!

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