quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Que bonito é

A bola da vez é o texto da Bruna Demaison. Um texto cheio de humor, que vale a pena ser compratilhado! Ah, importante esclarecer que foi escrito em 4 de Dezembro de 2009 e originalmente publicado no Tribuneiros.com.


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From O Maraca é nosso

A lembrança mais distante que tenho de futebol envolve crianças picando papel para jogar pela janela na hora do gol em uma época em que ainda não existia sustentabilidade, atitudes politicamente corretas e a Comlurb simplesmente catava tudo no final. Daí para frente, partidas passaram a significar possíveis comemorações no Clipper ou Baixo Gávea, o que já são ótimos motivos para torcer. No Maracanã mesmo eu só tinha visto grandes craques como a Madonna e o Rei.

Depois de vencido o trânsito para chegar, o palco da batalha parecia o Shopping Leblon. As escadas, pelo menos. Atravessei a portinha que leva às cadeiras, achei o meu lugar sem ajuda de lanterninhas e de repente olhei para frente. Não existia mais diminutivo. Nas arquibancadas as pessoas faziam coreografias e mosaicos que tenho certeza que eram efeitos especiais, sem metáfora.

From O Maraca é nosso

Os times foram entrando em campo e pensei em que tipo de auto-ajuda é aplicada aos que vão enfrentar aquele estádio sob vaias – eu não sairia do vestiário nem que acenassem com milhões, minha auto-estima jamais se recomporia nem com uma taça em solo inimigo. Quase pedi: gente, vaiar, não! Mas descobri que vaiar é muito legal.

Aos dois minutos de jogo um homem caiu ao meu lado. “Pronto, agora vou perder o espetáculo porque um espírito cristão não larga mortos sem assistência”. Antes que eu pudesse ajudar, o cidadão levantou a cabeça e gritou “Conca” de um jeito que me fez ter certeza de que algo terrível tinha acontecido ao jogador, mas o argentininho estava lá correndo em campo, sem muito a fazer em tão pouco tempo de bola rolando e que pudesse causar tamanha reação em alguém. Eu tenho vontade de gritar várias vezes por semana, é essa a grande inveja que sinto dos torcedores fanáticos. Se eu gritar “Carolina” ao modo “Conca” no meio do escritório obviamente o RH vai intervir, mas, ali, pode. Lancei-me ao chão e berrei “Ronaldo”, o único nome futebolístico familiar pra mim até então. Ninguém notou, o orgulho de ser tricolor era ensurdecedor, mas eu comecei a pular.

From O Maraca é nosso

É difícil em noventa minutos aprender nome e número de vinte e dois jogadores e isso é fundamental, urrar “p*&^-que-pa-riu-A-de-il-son!” é muito mais eficaz do que “p*&^-que-pa-riu-seu-idiota!”, assim o Adeilson não entende e continua não vendo o outro cara livre aqui na esquerda que insisto em apontar. Teriam sido cinco gols se eu berrasse nominalmente as ordens! A partir daí listei melhorias a serem implementadas, a começar por crachás gigantes nos atletas. Atrapalharia muito o desempenho? Por que não distribuem as letras das músicas como nas quadras de escolas de samba? Levei meio tempo para aprender “Quero gritar campeão”, e por sorte o set list foi pequeno. O hit “a benção João de Deus”, inclusive - e com todo o respeito - eu contextualizaria para os novatos, dá a impressão de que Marcelo Rossi vai aparecer, animaizinhos vão subir de dois em dois, João de Deus é o artilheiro? Perdoem a gafe, era a minha estréia.

Setinhas apontando quem está com a bola seria outro avanço, os vídeo games já fazem isso desde… Atari? O torcedor que fica apontando um laser verde para o gramado podia ao menos ajudar e fazer as vezes da setinha, quando voou um papel no campo me desesperei pensando ser outra bola! Ou eu poderia ir ao oculista.

Pelo que entendi das regras o melhor que pode acontecer é falta. Mais do que o gol, a cada uma marcada pelo juiz a platéia delirava, meu vizinho que caía mais no chão do que o time adversário (um tal de LDU) repetiu o gesto dezenas de vezes por causa disso. Infelizmente não houve pênalti, o que deve motivar a torcida a dar volta olímpica na arquibancada.

From O Maraca é nosso

No intervalo um senhorzinho invadiu o campo e ficou fazendo embaixadinhas solitariamente, fofinho. Ninguém reparou e por isso o deixaram ali, uma pessoa mais experiente disse que ele é o recordista da modalidade, mas duvido, quase atropelaram o idoso. Jogadores voltaram, a partida ficou tensa a ponto de começarem gritos de “é guerra”. “Peralá, povo, não tem UPP aqui, a área é complicada, vamos voltar a cantar João de Deus”. Como conseqüência do belicismo o capitão se irritou com o juiz e fez coisas que não entendemos porque olhos não têm zoom e o Galvão Bueno não estava lá para explicar (um radinho de pilha faz mais falta no estádio do que durante o apagão). Cartão vermelho aparece nos telões. É guerra. “O Fred vai te pegar”. Lembrei-me da Cuca do Sítio do Pica-Pau.

O tempo acabando gerou em outro homem ao meu lado descontrole total: “Juiz, você vai morreeeeeeeeeer! Vamu torcê, gente!” Aquilo me pareceu ameaça grave, aparentemente todos pensaram o mesmo e começaram a pular e gritar e bater mais palmas como se nossas mãos já não estivessem a ponto de verter sangue, mas aparentemente deveríamos provar que também éramos matadores. Fim de jogo. Perdemos o campeonato. “Alerta: essa gente vai invadir o Equador”. Mas não: aplaudiram o time e voltaram para casa se abraçando. Alma lavada. “Time de guerreiros”.

Eu, fascinada. Aprendi a cantar: domingo eu vou ao Maracanã.


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