segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O efeito terapêutico do futebol

Futebol é coisa séria. Depois de tantos textos, acho que todo mundo que frequenta esse espaço já entendeu isso mais do que bem. Mas também é diversão, é pão e circo, válvula de escape pro stress do dia-a-dia. 

Então como equilibrar isso?

O Globo Esporte de domingo mostrou uma matéria sobre a seleção Haitiana, que está no Brasil treinando pra Copa Ouro em Trinidad e Tobago, com seu técnico brasileiro. 

A relação entre os dois países tem o futebol como cola. O ápice veio em 2004, quando a seleção Canarinho disputou uma partida pela paz contra a seleção do Haiti. Estrelas como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos entraram em campo e depois desfilaram pela ilha, levando imensa felicidade a um povo que tinha (e ainda tem) tão pouco. A camisa do Gaúcho virou artigo de luxo disputado por todos os adversários e é guardada como um tesouro pelo vencedor.

O encontro despertou nos haitianos algo além do amor pelo esporte. Eles se tornaram torcedores da seleção brasileira. Torcedores tão apaixonados que a decoração das ruas durante a Copa de 2010 era mais pesada por lá do que no Brasil.

Considerando que eles sofreram recentemente com um terremoto que devastou o país e matou muitos, me emocionou ver que eles encontraram no futebol uma forma de projetar um futuro alternativo (provável e infelizmente fora da ilha), além de permitir a eles viver um presente um pouco menos pesado.

A parte ruim é que alguns levaram muito, mas muito a sério mesmo essa coisa do amor, do comprometimento, da dedicação. Quando o Brasil foi eliminado pela Holanda, é claro que muitos brasileiros ficaram mal. Acho que todo mundo viu o vídeo do menino que chorou de se acabar (o Salomão, lembra?) e até achou graça, porque sabia de todo o contexto, entendia que o Dunga estava em uma missão pessoal de implicância contra a mídia e seus opositores, mais do que queria vencer. 

Nós sabíamos disso, mas eles não. Eles entendiam a camisa amarela quase como uma instituição, algo a ser endeusado. Confiança cega, incontestável dedicada à camisa amarela. Nós sabíamos da parte feia, política, egoísta, teimosa e todos os adjetivos que cansamos de usar na época (insiram aqui os seus). Eles sabiam do circo, da felicidade, daquele grupo que os tinha visitado lá em 2004. 

Pois bem. Quando fomos eliminados, vários portais noticiaram o suicídio do jovem de 18 anos que se jogou na frente de um carro logo após o jogo. A matéria do Globo Esporte informou que o número de suicídios chegou a 20. 20 pessoas sofreram tanto com a derrota da nossa seleção que decidiram que não queriam mais viver depois disso. 

Acho que é isso que acontece quando não se dá a devida proporção às coisas, quando a paixão é levada mais a sério do que a diversão. Ou talvez quando não se tenha muito mais coisa pelo que viver, quando a conjuntura não permite que o futebol seja válvula de escape, mas transfira pro esporte uma responsabilidade que ele jamais deveria ter.

Com certeza, é uma história que deve ser contada a técnicos e jogadores, pra que eles entendam que suas escolhas, negociações e prioridades não afetam só suas carreiras e contas bancárias. Elas podem mudar (e até afetar) muitas vidas.



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