quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Mocinhos, bandidos ou apenas jogadores de futebol?




"Por que o atleta vive em guetos? O cara ganha R$ 100.000,00 por mês, tem bastante poder político, tem popularidade. Ele deveria criar. Porém, ele se isola por falta de informação. E é isso que o sistema quer conservar. Quanto mais ignorantes forem essas pessoas, mais fácil de elas serem controladas. A ignorância é um instrumento de opressão (...)" (Sócrates IN GOZZI, 2002, p.58).





Já estamos todos atualizados de que Neymar é o novo jogador-pra-odiar-e-criticar-da-semana (se bem que no caso do Neymar é quase semana sim, semana não). Essa é uma interessante categoria que acho que deveria ser melhor analisada, tentarei em poucas linhas.

O jogador-pra-odiar-e-criticar-da-semana é aquele cara que, de repente, todos mundo resolve falar mal. Ele pode ter várias atitudes que o levam a este status: pode ser uma falta dura, pode ser uma reclamação, uma briga com o adversário, uma briga com um companheiro, briga com o técnico (acreditem, Neymar não foi o primeiro), uma expulsão em um jogo de Copa do Mundo, uma bicicleta em uma final de Copa do Mundo. Não importa a ação, ele passa a ser o assunto preferido, ocupa as primeiras páginas dos jornais de esportes (ou do próprio jornal, depende do quanto ele é odiado), é assunto na mesa do bar, na hora do almoço, na volta pra casa do trabalho. Claro, normalmente ele passa do amor ao ódio em poucos instantes. Afinal, pra ser um jogador-pra-odiar-e-criticar-da-semana é preciso primeiro ser amado.

Quero deixar claro que não defendo a atitude do Neymar ontem, concordo que ele deve ser punido, que foi falta de educação, de respeito, que ele tá se achando. Mas me pergunto se ele realmente tornou-se um monstro tão abominável depois da vitória Santista no Campeonato Paulista desse ano. Talvez ele já fosse tudo isso; talvez ele não seja tudo isso... mas parece que o importante é que, hoje, ele é o monstro.

Aproveito para retomar uma discussão que já tivemos aqui: pra onde caminhamos com estes salários astronômicos e estas estrelas instantâneas do futebol?

É fácil falar que futebol é esporte, que damos demais valor ao que deveria ser só diversão. Será? Tudo bem, então é certo, damos muito valor. Mas e aí, isso significa ignorar todas estas questões? Todos esses jovens que tem que lidar com amor e ódio de maneira tão volúvel, com esse enriquecimento desenfreado, normalmente seguido de uma crise pública. Sei que não é só no mundo do futebol, mas no nosso país, é nesse espaço que esse tipo de coisa mais acontece.

Hoje, no dia seguinte da confusão do Neymar, publicam uma reportagem sobre um ex-jogador do Vasco, Fabrício Eduardo, que virou camelô (podem ler na íntegra aqui). Claro, é a história de sempre: começou a ficar famoso, ganhou muito dinheiro e... o sonho acabou. Fabrício fala da posição de quem perdeu tudo, assume seus erros e irresponsabilidades. Melhor: assume todos os erros e irresponsabilidades. Ou seja, a culpa é toda do jogador que não sabe aproveitar a oportunidade, logo nesse país, com tanta gente sem oportunidade etc, etc? Será que é tão simples assim? Podemos culpar só os Fabrícios e Neymars da vida?

Tampouco pretendo usar aqui a saída fácil de culpar só a mídia. É algo que faz parte de todos nós (ou quase todos, para também não cair no erro da generalização). Da nossa sociedade. Mais especificamente aqui das relações paternalistas que regem nosso futebol.

Comecei o post com uma idéia de Sócrates na época da Democracia Corinthiana, mostrando como esse paternalismo domina o futebol. Mas também acho que não dá pra culpar somente o "sistema", como se ele fosse um ser malvado que está ali só pra nos oprimir. Como já disse, acho que é a situação é resultado de ações coletivas. E nesse sentido, o jogador também tem sua carga de culpa. Outro nome de destaque da Democracia Corinthiana, Walter Casagrande disse ao refletir sobre as razões para o movimento não ter avançado:

A falta de liberdade é cômoda para os jogadores. Eles preferem não se envolver. Gostam do paternalismo e da forma como os dirigentes cuidam de tudo, centralizam as decisões. Eles vão treinar no horário determinado sem tentar mudá-lo, pegam as passagens na mão, os hotéis já todos reservados, e entram em campo para jogar seu futebol. Eles não lutam por melhorias porque gostam da forma como as coisas funcionam. (Casagrande IN GOZZI, 2002, pp. 75-76.)


Futebol é isso aí, minha gente.

(A imagem é do blog do Paulinho Couto)

7 comentários:

  1. sócrates resumiu tudo.
    futebol e educação tem que andar juntos!

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  2. Vc se esqueceu do jogador-pra-odiar-e-criticar-da-semana que assassina a amante, e dá para os cachorros comerem! (totalmente incorreta politicamente)

    Brincadeiras à parte, eu acho sim que ele é um idiota e merece ser punido para aprender. seja pela crítica (que surte pouco efeito), seja pelo técnico, seja pela família, seja pelo clube, que seja, independente da idade que tenha.

    Tava vendo uma reportagem com o Philipe Coutinho, que tem a mesma idade do Neymar, e tem a cabeça no lugar, nunca foi alvo de escândalos, joga muito bem e nunca ouvi ninguém falar mal dele. Ou seja, dá pra ser alvo da mídia e não se sentir acima do bem e do mal, basta bom senso. Mas essa é uma característica rara....

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  3. Tb vi a matéria que a Marcela viu. Realmente, o moleque é bem bacana, bem criado. Mas ali você tb via a mãe dele falando sobre o medo dela de que o filho esteja assumindo muita responsabilidade tão jovem.

    Acho complicado que o futebol permita a alguém dormir como alguém cheio de dificuldades e acordar milionário e podendo comprar os vizinhos pra fazer decoração na sala.

    O deslumbramento pode ser tanto, que o atleta não segura a onda, sai torrando, não projeta quanto sua carreira pode durar, suas perspectivas depois e por aí vai. Aí acaba tipo esse jogador do Vasco, o que é triste.

    Vai ver o Andrade, que foi um puta jogador, técnico do time que levou o Brasileiro de 2009, desempregado há 5 meses.

    Nem tudo que acontece é responsabilidade dos jogadores, nem tudo é culpa da mídia, nem tudo é culpa do clube. Acho que é uma grande equação complicada, em que cada um tem a sua contribuição pro bem ou pro mal.

    A mídia precisa vender conteúdo, e farofa é sempre mais saborosa que mostrar um cara bem resolvido. Esse aí ganha uma materiazinha especial, olha que bonitinho. Mas o que gera cliques nos portais, TTs no Twitter, barulho nas rádios, conversas de bebedouros, vende jornais, ainda é o rebelde.

    Não importa se a confusão foi em campo, nos vestiários, ou algo mais sério, como foi o caso do Bruno.

    A galera adora um pãozinho pra acompanhar o circo.

    Quanto ao Neymar, acho que o pai dele deveria cortar a mesada, proibir o Twitter e deixá-lo de castigo, pra aprender a se comportar. Criança só aprende assim.

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  4. Neymar vai xingar muito no Twitter!

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  5. Pois é, como eu disse no texto, acho que o Neymar errou feio, tem que sofrer as consequências. Na verdade acho ele um mala, mas aí não conta na discuss4ao, hehe. Mas fico com essa pulga atrás da orelha: não tem alguma coisa errada nisso tudo?

    Como a Nanda bem disse, é o que vende. De fato, é o que nós queremos ler, também. Afinal, não dá pra todos os clubes ganharem o campeonato, né? Então tem que aparecer de alguma maneira.

    Senti uma vibe meio BBB nesse caso, quase como se Boninho tivesse ameaçado tirar Neymar da "casa". Por isso o pedido de desculpas, que aliás foi mais falso que de criança que rouba doce do amiguinho!

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  6. Acho que essa frase do Casagrande tem a ver com outra discussão que já rolou por aqui. Concordo plenamente que, em sua maioria, os jogadores hoje são um bando de crianças que tem que ser tratados assim pelos clubes e, ainda por cima, querem e esperam essa atitude paternalista.

    Concordo também que a raiz desse problema e dessa atitude é a educação. É raro ver jogadores com educação.

    Some a isso a falta de idade e experiência... o resultado não poderia ser diferente.

    Isso tudo tem a ver também com o futebol como negócio, que também já comentamos aqui. Neymar, por mais craque que seja, tem que entender que o Santos é muito maior do que ele. Mas vai explicar isso prum menino de 18 anos, assediado pelo Chelsea e pela imprensa, ganhando mais dinheiro do que pode gastar, etc etc...

    Pra finalizar, minha porção RANZA acha tudo isso um saco e, pessoalmente, não dou importância alguma. Eu quero mesmo é ver gol!

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  7. E digo mais, dizem que as mulheres são fofoqueiras. Mas as páginas de esportes, redigidas quase totalmente por homens, parecem mais a Caras! Foto do biquinho do Neymar na capa e tudo!

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