quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Futebol e democracia: uma combinação possível

"A gente também pode transformar a sociedade por meio do futebol. É o único meio, penso, que pode acelerar o processo de transformação da nossa sociedade porque é a nossa maior identidade cultural. Todos entendem de futebol. De política, nada." (Sócrates IN GOZZI, 2002, p.58).


Aproveitando o centenário do Corinthians, comemorado hoje, acho uma boa oportunidade pra pensar uma questão ainda complicada no nosso futebol: as relações de poder.

Não faltam exemplos de autoritarismo no futebol brasileiro (na verdade no futebol mundial), seja um técnico mandão, um dirigente, até nas próprias torcidas vemos que a base é um modelo autoritário. Neste universo, cada vez ganha mais destaque a experiência do Corinthians no início da década de 1980, que ficou conhecida como Democracia Corinthiana (nome dado pelo jornalista Juca Kfouri). Vamos ao que interessa.

A Democracia Corinthiana foi uma experiência inédita no futebol, que começou em 1981-82, em plena ditadura civil-militar, na época em que começava a pressão pela abertura política. Liderados pelo craque "Doutor" Sócrates e pelo diretor de futebol do clube Adílson Monteiro Alves, os jogadores estabeleceram uma organização muito simples: tudo era votado. Um novo jogador contratado, se iriam fazer concentração, os horários dos treinos, tudo passava pela votação de todos. E os votos tinham o mesmo peso, um por pessoa.

A experiência tinha tudo a ver com o momento que o país vivia, mas também representava um desejo maior de Sócrates: questionar toda a relação trabalhista do mundo do futebol, para então mudar a realidade. Ele defendia, por exemplo, que todos os jogadores deveriam ter pelo menos Ensino Médio, que deveriam ser muito mais do que uma simples mão-de-obra e participar efetivamente das decisões do clube e do time.

O projeto ganhou importantes adeptos, como o publicitário Washington Olivetto e a cantora Rita Lee. Em plena ditadura, os jogadores corinthianos vestiram uma camisa com a frase "Dia 15 Vote", em clara alusão às eleições para governador realizadas em 1982. Claro que isso também gerou problemas, não só com o governo, mas com outros representantes do mundo do futebol que não queriam mudanças na estrutura.

E os resultados apareceram também em campo: depois de uma década de crise, o Corinthians foi campeão paulista em 1982 e 1983, chegou à duas semifinais do Campeonato Brasileiro e ficou bem perto da uma vaga da Libertadores.

Mas com a saída de Sócrates para a Itália após a derrota da Emenda Dantes de Oliveira no Congresso Nacional (que tentava restabelecer eleições diretas para presidente da República) desfez-se o movimento. Sem seu principal líder e com a saída de outros nomes importantes como Walter Casagrande, o Corinthians voltou à mesma estrutura anterior, e o sonho democrático chegou ao fim.

Mas fica a bela lembrança. E mesmo tendo minhas implicâncias com o clube, não posso deixar de parabenizá-lo no dia de hoje, por este belo capítulo de sua história.

7 comentários:

  1. Taí. Futebol e engajamento social. Inesperado e uma belíssima homenagem ao clube. Parabéns à Lívia, pelo texto, e ao Corinthians, pelo centenário. Apoio que esse seja o espírito sempre. =)

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  2. Brigada! :) Já falei que fico tímida, rs!

    Adoro essa experiência do Corinthians. Acho que ela deve ser contada sempre, e poderia servir de exemplo pra muita coisa no futebol de hoje, né?

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  3. Sem dúvida!! Ainda mais hoje em dia, em que os times só ganham espaço na mídia por crises e escolhas equivocadas, quase nunca por projetos bacanas e bem estruturados. E as torcidas, então... =/

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  4. Belo, interessante e esclarecedor texto. Acho muito estimulante a forma como vcs estão lidando com esse assunto "ainda muito masculino". Sigam em frente!!! Já votei OK?
    Bjs
    Mara

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  5. Que bonita a minha tia Mara, gente! :)

    Vota mais!!!! :)

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  6. ei, deletaram o meu comentário???????

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  7. Belo post, Lívia. Ótimas informações.
    Pena que um time com esse exemplo hoje tenha relações tão indecentes com o "dono" da CBF, vide aprovação de um estádio com projeto incompleto para a Copa do Mundo. Essa história ainda está rolando mas é bem estranha...
    A atual administração aproxima-se muito mais do "populismo corinthiano", bem de acordo com seu mais ilustre torcedor.

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