quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Fazendo carreira

Quando Neymar disse ao povo que ficaria, pelo bem de todos e felicidade geral da nação santista, pensei com meus botões "ok, até que o moleque não é tão tapado, mesmo que aquela paradinha seja um pé no saco."

Diante do assédio gringo, o Santos inovou em sua contraproposta e foi além dos valores. Apresentou ao garoto um plano de carreira. O empresário disse que a decisão foi da família, e fico feliz que eles não tenham cedido à pressão que Wagner Ribeiro deve ter feito (aqui que ele não deu uma apertada básica pensando em sua própria independência financeira!!).

Outro dia tivemos a discussão por aqui sobre o que faz um torcedor e a Camilla levantou um belo argumento sobre quem escolhe seu time de coração ao ver determinado jogador em campo, por se apaixonar por seu jogo, como muitos devem ter feito com Zico, Pelé, Garrincha. Mas hoje, se fôssemos pensar por esse ângulo, torceríamos por jogadores, e não por clubes, pois o amor à camisa se dá mais por obrigação do contrato do que pelo coração. Quem pagar mais, leva o atleta e leva sua fidelidade.

Quase como o poema de Vinícius, infinito enquanto dure. O máximo que vemos acontecer é alguém dizer "eu sou flamenguista, mas jogo pelo XXXXX e eu farei o melhor para meu time ser campeão nessa disputa".

E aí o profissional de antigamente, que muitas vezes mais parecia um funcionário público do que um atleta, de tanto tempo que passava em um clube só, dá lugar a um jogador mais pipoca, que pula de time em time, de acordo com os diversos interesses que podem estar envolvidos.

Quando o cara começa num clube de menor status e se destaca, sonha em jogar num grande. Val Baiano, por exemplo, fez bonito no Barueri e foi parar no Flamengo. Até agora, não conseguiu repetir seus feitos, pro desgosto da torcida. E dele próprio, com certeza.

Mas o sonho de 9 entre 10 jogadores, pelo menos, é jogar fora do Brasil. De preferência, na Europa, mesmo que os bônus nos países árabes sejam obcenos. E o problema é que, por se tratar de uma carreira muito curta (a aposentadoria pode vir antes dos 40, então todas as suas decisões devem ser muito bem planejadas), há o tempo certo pra você pular no barco do time grande no Brasil e depois no avião que vai te levar pra Liga dos Campeões.

Funcionou com Adriano, com Ronaldo, com Ronaldinho. Robinho ficou famoso lá fora como o jogador mais mercenário, depois acabou voltando pro Santos, onde (eu acho, né?) reconquistou um pouco seu carisma. Mas muita gente vai lá pra fora como promessa e cai no anonimato. Dois belos exemplos pra mim são Keirrison e Nilmar. Tanta farofa...

Acho que nessa brincadeira das janelas de transferências que arrepiam os cabelos da nuca de todo torcedor que se vê diante da possibilidade de ver seu time estraçalhado pelo Velho Mundo, muitos clubes lá fora se precipitam para colher suas próximas estrelas, pegando jogadores que ainda precisam amadurecer bastante antes de largar suas estruturas pra trás. E a sangria desatada também deslumbra os atletas, é claro. É a tal da independência financeira de que todos falam, é a ideia de ser ídolo em um aquário muito maior.

Mas nem só de glamour vivem os contratos dos sonhos. Muitos jogadores chegam numa Inter de Milão ainda verdes pra serem emprestados a clubes menores até serem dignos de defender a camisa do time que os comprou. Outros simplesmente chegam pra não justificar o investimento. E há os que estouram, superam as expectativas e surtam, tipo Adriano.

Entendo que os salários milionários gritem nos ouvidos de meninos que, em sua esmagadora maioria, crescem sem nada. Talvez berrassem até nos meus. Minha questão é: será que é uma fórmula fechada, sem brechas, que todos devem seguir pra terem sucesso de verdade?

Talvez eu esteja viajando, mas também já estou cansada de ficarmos com o refugo do que o futebol que importa não quis pescar, ou apresentando planos de recuperação dos atletas que acham que já está na hora de voltar pra casa. Queria que o Brasil fosse uma alternativa digna para quem quer jogador de futebol, que fazer carreira em um clube, dar alegrias àquela torcida fosse um sonho pra um moleque deslumbrado.

Queria mais Zicos, mais Garrinchas, mais Pelés. Mais amor à camisa.

2 comentários:

  1. Eu tô sentindo uma leve mudança de cenário, Nanda. A julgar, por exemplo, pelos longos contratos que tem sido realizados aqui no Rio (pelo menos no Flu), agradando ao clube, aos jogadores e, principalmente, aos torcedores. Claro que longos contratos não são garantia de que o jogador vai ficar, mas com as multas recisórias milionárias, já dificulta um pouco a sua saída, e se não for suficiente para segurá-lo, quem quiser levá-lo terá de desembolsar uma grana alta onde a maior parte irá para o clube....

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  2. Marcela, vc disse tudo. Contratos longos não são garantia de nada. Veja o caso do Neymar, em que o clube estava disposto a pagar os milhões da multa recisória. Veja o Emerson, que agora defende seu time. Quando um Sheik resolve que quer gastar seus petrodólares pra bancar sua contratação e ainda te oferece carros de bônus, quero ver o atleta dizer não e o clube segurar. O empresário do Neymar mesmo disse "Aham, beleza, ele ficou. Mas duvido que cumpra o contrato até o fim.". Contratos têm brechas. E advogados existem.

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