terça-feira, 17 de agosto de 2010

A Copa de Don João

Terminou a Copa do Mundo e tanto nós como os hermanos argentinos tivemos que lidar com a questão da crise de nossas seleções. Na terra do tango o drama continua –Maradona saiu e deu entrevista apontando dedo, e ainda não há um técnico definitivo-, por aqui vivemos a euforia de Mano Menezes e a nova geração.

No meio de tudo isso, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, foi até Buenos Aires se encontrar com seu amigo Julio Grondona, presidente da AFA. O motivo da visita? A reedição da Copa Roca, torneio que deixou de ser disputado em 1976.

Vamos por partes. A Copa Roca é um torneio estranho, pelo menos pra mim, por sua simplicidade: são apenas duas seleções (claro, nós e eles), e dois jogos (algumas vezes um terceiro de desempate). Só isso, mesmo. Mas tem um grande peso histórico. E esta é a segunda parte importante.

A Copa Roca foi criada em 1914, idéia do presidente argentino Julio Argentino Roca (daí o nome), que além de ser um apaixonado pelo esporte e oferecer o troféu, via na disputa um meio de estreitar relações diplomáticas. Pois é, futebol e política sempre estiveram lado a lado. Naquela época, Brasil e Argentina disputavam a hegemonia sul-americana (só naquela época?), e houve momentos de tensão. É preciso destacar a visão de Roca da importância do futebol fora de campo.

Mas também é preciso destacar outras coisas. Primeiro, 1914 é o ano que começa a Primeira Guerra Mundial na Europa. Com isso, eventos esportivos, como Olimpíadas, estavam suspensos, e a primeira Copa do Mundo só aconteceu bem mais adiante, em 1930. Ou seja, quando a Copa Roca é criada, não existiam tantos confrontos entre os dois países como hoje. Também temos que pensar que o futebol ainda não era profissionalizado em nenhum dos dois países, e aqui, sequer permitia a participação de jogadores negros. Definitivamente, outros tempos. Outra curiosidade é que não existia um calendário exato para a Copa, que ocorreu nos seguintes anos (com o respectivo campeão):

Brasil Brasil: 8

Argentina Argentina: 4


Felizmente, o Brasil sai na frente no saldo final.

Agora vem a parte que, pelo menos eu, considero a mais irônica agora: o nome da nova Copa será João Havelange. Por que eu acho irônico? Porque muitos argentinos estão bem ofendidos com isso. Afinal, para grande parte dos hermanos Roca é um líder histórico, um presidente até hoje celebrado. Para outros, um repressor racista, que exterminou os nativos. Para bem ou para mal, um grande nome pátrio, como eles gostam de falar. E essa comparação com Havelange, ex-presidente da FIFA, fere o orgulho argentino.

Aí eu deixo a polêmica no ar: será que, mundialmente, Havelange como presidente da FIFA não teve um peso muito maior que o Roca na Argentina? Digo, para o bem ou para o mal.


Curiosidade: Roca foi o primeiro presidente sul-americano a assistir a um jogo de futebol como Chefe de Estado, em 1904. Em outro jogo, em que se enfrentavam Argentina e Brasil, e os hermanos nos ganhavam por 3X0, Roca entrou no vestiário de sua seleção durante o intervalo para pedir moderação aos seus jogadores: era preciso respeitar o momento de aproximação diplomática entre os dois países, portanto nada de arruinar o clima com uma goleada.


3 comentários:

  1. Curioso, e uma questão excelente. Não escolheria Havelange pra batizar coisa alguma, quanto mais um torneio. Daí penso outra coisa. Será que no contexto atual, a reedição da Copa Roca não teria consequências mais negativas que positivas? Como você disse, não havia toda essa rivalidade entre Brasil e Argentina, o torneio poderia, facilmente, servir para estreitar relações diplomáticas (aliás, genial a ideia de se usar o futebol para fazer amiguinhos políticos!!), mas hoje em dia já temos uma disputa entre os países, especialmente no que tange à pelota, que as pessoas já seguem sem questionar. Quantos molequinhos não entram na discussão Maradona X Pelé quando só viram Messi e Ronaldinho jogando? Então eu penso... Será que uma Copa João Havelange não seria o começo de uma nova Guerra Mundial?? (sim, guardadas as devidas proporções, é claro!!)

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  2. Também não acho que vai dar certo. Nessa Copa de 2010 eu estava em Buenos Aires e me assustei com a comemoração dos "hermanos" com a nossa derrota. Ou seja, a rivalidade é tal que um torneio como esse parece procurar sarna pra se coçar...

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  3. Gente, mas futebol É rivalidade!! Sou super a favor do torneio e acho que o mais correto seria manter o nome, honrando assim a memória do próprio torneio.

    COlocar Havelange é muita puxa-saquice.

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